terça-feira, 23 de junho de 2020

Páscoa: É domingo, e o terceiro dia sempre chega.

Domingo de Páscoa – para muitos pode representar a celebração de um novo dia que emerge das cinzas. Mas pode ser que, hoje, ao abrir as janelas, o vislumbre do sol pareceu não corresponder com a maneira que você gostaria de vê-lo brilhar, um brilho que entrasse em ressonância com uma realidade interior. Às vezes, precisamos ajustar algumas lentes internas para interpretar a realidade à nossa volta mediante uma nova perspectiva, e por fim descobrir que a vida realmente pode estar disponível a todos que quiserem apalpá-la. Por vezes, a boa notícia já chegou, já está lá fora na caixa de correios, mas optamos por abraçar as velhas, e ficarmos resignados no sofá do lado de dentro, atrás das cortinas, deixando o “ser interior” escorado nas notícias de um velho jornal que parece não ter mais função alguma, senão de nos esconder dentro de nós mesmos. A luz também pode estar lá fora, brilhando, resplandecendo, em seu máximo fulgor, e podemos optar por fechar as janelas e ficarmos com o brilho opaco de uma lâmpada fria que se esforça para iluminar mas parece não cumprir sua função. A verdade: queremos mesmo é sermos aquecidos por dento.
O verdadeiro sentido da páscoa, transcende coelhos e chocolates, a páscoa representa a morte de um Cordeiro. O momento exige uma reflexão. Quantas coisas não parecem desvanecer com tempo em nossas vidas, ou mesmo a própria vida, perder o seu vigor. Esmorecer de verdade. Para alguns, o terceiro dia parece demorado demais, largo e sem fim, a ponto de acreditarmos que já não há mais como reaver o que já foi. Mas e se você tomasse coragem em si mesmo, e resolvesse pisar a grama lá fora, abrir a caixa de correios, e se surpreendesse com a notícia de que o terceiro dia já estava às portas, esperando que você apenas pudesse tomar esse conhecimento? Trata-se de uma simples questão de acesso. Ou, talvez, da pré-disposição para acreditar na possibilidade de que algo novo realmente possa estar disponível. E se mover em direção a isso. Ela pode estar ao alcance de uma mão. E a boa notícia que quero lhe dar neste domingo de páscoa, é: de fato, ela está. Mas como alcançá-la?
Existe um texto conhecido de Fernando Teixeira, que diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. O texto é conhecido, mas pode se tornar velho se não ousarmos colocá-lo em prática. Pode se tornar fresco como uma fruta que acabou de cair no seu pomar, se ousarmos colocá-lo. De fato, há muitas coisas que nós sabemos, mas que não veremos os seus frutos, se não pudermos aplicá-las em nossas vidas. Mas voltemos ao texto, a constatação de algo inerte que parece nos mobilizar não nos ajuda no movimento necessário. Para sermos impulsionados para um novo lugar, precisamos abrir mãos das roupas que não cabem mais, ou, quem sabe, de pensamentos que não cabem mais? Ideias adormecidas com o tempo. Obscuras, e que não produzem efeito de evolução. Precisamos ser mais espertos do que elas, e reconhecermos que não merecem mais um lugar de repouso. É preciso coragem para realizar a travessia. É preciso mais coragem para reconhecer a necessidade de fazê-la.
Você conhece a lei física: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Para o novo entrar, a regra é básica: o velho precisa sair. Para um pensamento novo entrar, precisamos ser intencionais em enxotar com firmeza o velho para fora. Uma ideia que serve para nos deixar à margem de nós mesmos, não merece lugar de repouso. A travessia é necessária. Uma ideia que rouba a nossa esperança nos impedindo de avançar e crescer, não merece lugar de repouso. É preciso coragem. A vida pode ressurgir das cinzas, se acreditarmos nisso. O sepulcro pode se abrir, e os sonhos acordarem de um sono profundo, se acreditarmos nisso. O sentimento de derrota pode sair pela porta dos fundos, para nunca mais voltar, se tão somente acreditarmos nisso, abrirmos a porta da frente, e deixarmos a luz entrar. Tudo aquilo que nos rouba a esperança não merece a nossa atenção. O terceiro dia já chegou e a Esperança já ressurgiu, a Vida já chegou, a morte já foi tragada. Como diz um texto bíblico: “onde está ó morte, o seu aguilhão? ”. É domingo de Páscoa, e a morte foi vencida. É a celebração de um novo dia. Então, vamos lá, abra as janelas, e simplesmente deixe o Sol brilhar e deixe a vida entrar!
Feliz Páscoa!

Publicado em 21 de abril de 2019

Nenhum comentário:

Postar um comentário