Você já pegou uma carona na leitura
de um livro ou na narrativa de filme, e teve a experiência de ser atingido por
uma fala, frase ou percepção que despertou você para algo novo? Por vezes, o
contato com uma narrativa cheia de significados é uma poderosa ferramenta para
nos auxiliar na ressignificação de nossas próprias narrativas.
É incrível o poder que elas possuem
de provocar em nós coisas que demorariam anos, ou mesmo exigiriam a combinação
muitas variáveis para produzir o mesmo resultado.
É o poder do acesso. Uma narrativa
que coincide em algum aspecto com as nossas próprias histórias pode contribuir
para verdadeiras epifanias, as quais são capazes de despertar a nossa
consciência para coisas que são verdadeiramente importantes.
Considero essa abertura para uma nova
perspectiva uma espécie de rasgo no tempo, um encontro com uma realidade
atemporal, uma vez que emerge subitamente como uma inspiração e provoca o
descortinar numa fração de segundo. Por isso, é interessante notar que esse
tipo de experiência também se relaciona de alguma forma com uma reflexão sobre
o tempo e o nosso posicionamento no mundo.
No filme O Preço do Amanhã, de Andrew
Niccol, o tempo é representado como moeda e, no momento em que ele “zera” no
cronômetro implantado no braço de cada indivíduo, o coração para de pulsar. A
consciência de que o tempo finda é um exercício reflexivo extremamente
saudável, na medida em que produz em nós certo senso de urgência – essa que nos
concede um impulso, uma força motriz necessária ao movimento contínuo de
transformação e revolução. Quanto maior significado atribuímos às coisas, tendemos
a tratá-las à altura que elas exigem, ou mesmo merecem.
Há um texto bíblico que diz: “Não
sabeis que entre todos os que correm no estádio, na verdade, somente um recebe
o grande prêmio? Correi de tal maneira que alcanceis” (1Coríntios 9.24).
Refletir sobre o tempo nos leva a lutarmos com um alvo certo, investir em um
sonho legítimo – e pode ser considerado como tal, quando os sonhos reverberam a
partir certa “percepção de eternidade” produzindo um senso de convicção e
propósito. É preciso segurar essa percepção (e é essencialmente sobre ela que
discorro por todo texto), lutarmos com toda a força da nossa existência para
conceber dentro do tempo o que fora capturado fora dele. Os nossos corações são
uma espécie de antena parabólica, capazes de operar dentro e fora do tempo.
Portanto, dê ouvidos às suas intuições, elas merecem profundo respeito.
A vida é feita de pausas e impulsos.
Um corredor que gasta toda a sua energia na largada, terá problemas no
percurso. Precisamos encontrar o nosso ritmo na corrida.
As pausas, que proporcionam momentos
de inspiração e descanso e a consciência da finitude do tempo, a qual nos
desperta para aquele senso de urgência, corresponde a estes movimentos
intercalados de inspiração e expiração. Reflexão e ação. Abastecimento e
impulso. Se visualizarmos estes movimentos como pontos de uma tapeçaria, e nos
distanciarmos um pouco, nos lembraremos que o tempo discorre mediante uma
narrativa. E é muito importante considerá-lo dessa forma. A perspectiva final
nos dará a visão de um quadro completo. Cheio de significado. Mas foi ponto a
ponto, pincelada a pincelada, daí a importância de concebermos o tempo como
jornada, como um percurso.
O tempo se revela no desabrochar da
semente. O valorizamos quando temos essa perspectiva de processo: quando temos
paciência de esperar germinar, e ficamos na expectativa de ver crescer, pouco a
pouco, e colher de seus frutos, no devido tempo. Por vezes, com avanços
imperceptíveis enquanto aguardamos os primeiros frutos. Mas o verdadeiro sabor
dos frutos está todo aí. Na história que ele carrega dentro.
O tempo também pode ser feito de uma
sucessão de “agoras”. Quando optamos por apreciar a viagem O resultado é uma
presentificação de um “agora” mais largo e cheio de valor. Quando apreciamos a
vida em seus mínimos aspectos, também concedemos grande valor ao tempo, dado a
nós como dádiva. Percebemos, dessa forma, que a eternidade também pode se
expressar em eternos momentos presentes, e que mínimos aspectos podem ser os
mais primordiais! Há um texto no livro de Eclesiastes que gosto muito, e diz:
“Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois
Deus já de antemão se agrada das tuas obras”. Há coisas que possuem valor de
eternidade quando apreciadas dignamente. Portanto, a valorização do tempo
também está relacionada à apreciação, reconhecimento e contemplação das coisas.
Existe uma amplificação desse estado,
representado por um tipo de tempo, nomeado no grego de ‘Cairos’ – é o tempo que
designa um momento oportuno, que parece ser um instante presentificado do
“agora”- sim quero ser intencionalmente redundante, pois é uma espécie de
“agora” sobre “agora”, culminando em um único instante cheio de fulgor. Um
momento onde todas as variáveis parecem convergir para um instante único,
decisivo e oportuno. Santo Agostinho, no livro XI de suas Confissões, discorreu
acerca da relação do homem com o tempo, definindo a eternidade como um eterno
presente: “Na eternidade, ao contrário, nada passa, tudo é presente”.
Seria um eterno agora, um lapso da
eternidade invadindo o espaço-tempo e modificando significativamente a nossa
relação com o mundo que nos cerca.
No filme, Tomorrowland: um Lugar onde
nada é Impossível, uma garota encontra um “pin” que, ao ser tocado, a
transportava instantaneamente para uma outra dimensão no futuro. Não um futuro
comum, mas um lugar onde “todos os gênios, artistas e cientistas”, decididos
mudar o mundo, “pudessem construir tudo que imaginassem”. A garota é escolhida
para mudar o mundo por ser uma sonhadora, alguém que nunca desiste, na missão
de desativar uma espécie de “pin” gigante que estava emitindo uma frequência a
qual estaria induzindo a humanidade sobre a ideia de que o mundo iria acabar
mal. O fato é que podemos escolher as frequências das quais nos alimentamos,
elas serão determinantes na criação do nosso ecossistema interior. Frequências
são modelos de percepções que determinarão a forma como interpretamos e nos
posicionamos no mundo. Este filme merecia um texto somente para ele. Mas o
ponto que queria está aqui: um toque, um instante, e ela era capaz de
vislumbrar uma realidade futura. Neste momentum de insight ou inspiração, que
nos desloca para fora do tempo – uma realidade cheia de novas percepções, a
qual é capaz de elevar a nossa consciência com inspirações e provocar mudanças
significativas em nossa maneira de ler, interpretar o e nos mover no mundo.
O resultado disso – escolhas mais
conscientes. Existe um experimento da física quântica que demonstra o
comportamento das partículas diante da presença ou ausência de um observador,
revelando que elas se comportam de maneira significativamente distinta na
presença dele, sendo determinante na criação de uma realidade. Quando estamos
conscientes das escolhas que realizamos, de fato estamos dando substância às
coisas. Uma consciência elevada e desperta é um fator imponderável na
construção de um novo mundo!
Portanto, inspire-se, capture,
realize e mude o seu mundo!




