sábado, 22 de maio de 2021

Uma Reflexão sobre o Tempo e o nosso Posicionamento do Mundo

 

Você já pegou uma carona na leitura de um livro ou na narrativa de filme, e teve a experiência de ser atingido por uma fala, frase ou percepção que despertou você para algo novo? Por vezes, o contato com uma narrativa cheia de significados é uma poderosa ferramenta para nos auxiliar na ressignificação de nossas próprias narrativas.

É incrível o poder que elas possuem de provocar em nós coisas que demorariam anos, ou mesmo exigiriam a combinação muitas variáveis para produzir o mesmo resultado.

É o poder do acesso. Uma narrativa que coincide em algum aspecto com as nossas próprias histórias pode contribuir para verdadeiras epifanias, as quais são capazes de despertar a nossa consciência para coisas que são verdadeiramente importantes.

Considero essa abertura para uma nova perspectiva uma espécie de rasgo no tempo, um encontro com uma realidade atemporal, uma vez que emerge subitamente como uma inspiração e provoca o descortinar numa fração de segundo. Por isso, é interessante notar que esse tipo de experiência também se relaciona de alguma forma com uma reflexão sobre o tempo e o nosso posicionamento no mundo.


No filme O Preço do Amanhã, de Andrew Niccol, o tempo é representado como moeda e, no momento em que ele “zera” no cronômetro implantado no braço de cada indivíduo, o coração para de pulsar. A consciência de que o tempo finda é um exercício reflexivo extremamente saudável, na medida em que produz em nós certo senso de urgência – essa que nos concede um impulso, uma força motriz necessária ao movimento contínuo de transformação e revolução. Quanto maior significado atribuímos às coisas, tendemos a tratá-las à altura que elas exigem, ou mesmo merecem.


Há um texto bíblico que diz: “Não sabeis que entre todos os que correm no estádio, na verdade, somente um recebe o grande prêmio? Correi de tal maneira que alcanceis” (1Coríntios 9.24). Refletir sobre o tempo nos leva a lutarmos com um alvo certo, investir em um sonho legítimo – e pode ser considerado como tal, quando os sonhos reverberam a partir certa “percepção de eternidade” produzindo um senso de convicção e propósito. É preciso segurar essa percepção (e é essencialmente sobre ela que discorro por todo texto), lutarmos com toda a força da nossa existência para conceber dentro do tempo o que fora capturado fora dele. Os nossos corações são uma espécie de antena parabólica, capazes de operar dentro e fora do tempo. Portanto, dê ouvidos às suas intuições, elas merecem profundo respeito.

A vida é feita de pausas e impulsos. Um corredor que gasta toda a sua energia na largada, terá problemas no percurso. Precisamos encontrar o nosso ritmo na corrida.

As pausas, que proporcionam momentos de inspiração e descanso e a consciência da finitude do tempo, a qual nos desperta para aquele senso de urgência, corresponde a estes movimentos intercalados de inspiração e expiração. Reflexão e ação. Abastecimento e impulso. Se visualizarmos estes movimentos como pontos de uma tapeçaria, e nos distanciarmos um pouco, nos lembraremos que o tempo discorre mediante uma narrativa. E é muito importante considerá-lo dessa forma. A perspectiva final nos dará a visão de um quadro completo. Cheio de significado. Mas foi ponto a ponto, pincelada a pincelada, daí a importância de concebermos o tempo como jornada, como um percurso.

O tempo se revela no desabrochar da semente. O valorizamos quando temos essa perspectiva de processo: quando temos paciência de esperar germinar, e ficamos na expectativa de ver crescer, pouco a pouco, e colher de seus frutos, no devido tempo. Por vezes, com avanços imperceptíveis enquanto aguardamos os primeiros frutos. Mas o verdadeiro sabor dos frutos está todo aí. Na história que ele carrega dentro.


O tempo também pode ser feito de uma sucessão de “agoras”. Quando optamos por apreciar a viagem O resultado é uma presentificação de um “agora” mais largo e cheio de valor. Quando apreciamos a vida em seus mínimos aspectos, também concedemos grande valor ao tempo, dado a nós como dádiva. Percebemos, dessa forma, que a eternidade também pode se expressar em eternos momentos presentes, e que mínimos aspectos podem ser os mais primordiais! Há um texto no livro de Eclesiastes que gosto muito, e diz: “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras”. Há coisas que possuem valor de eternidade quando apreciadas dignamente. Portanto, a valorização do tempo também está relacionada à apreciação, reconhecimento e contemplação das coisas.

Existe uma amplificação desse estado, representado por um tipo de tempo, nomeado no grego de ‘Cairos’ – é o tempo que designa um momento oportuno, que parece ser um instante presentificado do “agora”- sim quero ser intencionalmente redundante, pois é uma espécie de “agora” sobre “agora”, culminando em um único instante cheio de fulgor. Um momento onde todas as variáveis parecem convergir para um instante único, decisivo e oportuno. Santo Agostinho, no livro XI de suas Confissões, discorreu acerca da relação do homem com o tempo, definindo a eternidade como um eterno presente: “Na eternidade, ao contrário, nada passa, tudo é presente”.

Seria um eterno agora, um lapso da eternidade invadindo o espaço-tempo e modificando significativamente a nossa relação com o mundo que nos cerca.


No filme, Tomorrowland: um Lugar onde nada é Impossível, uma garota encontra um “pin” que, ao ser tocado, a transportava instantaneamente para uma outra dimensão no futuro. Não um futuro comum, mas um lugar onde “todos os gênios, artistas e cientistas”, decididos mudar o mundo, “pudessem construir tudo que imaginassem”. A garota é escolhida para mudar o mundo por ser uma sonhadora, alguém que nunca desiste, na missão de desativar uma espécie de “pin” gigante que estava emitindo uma frequência a qual estaria induzindo a humanidade sobre a ideia de que o mundo iria acabar mal. O fato é que podemos escolher as frequências das quais nos alimentamos, elas serão determinantes na criação do nosso ecossistema interior. Frequências são modelos de percepções que determinarão a forma como interpretamos e nos posicionamos no mundo. Este filme merecia um texto somente para ele. Mas o ponto que queria está aqui: um toque, um instante, e ela era capaz de vislumbrar uma realidade futura. Neste momentum de insight ou inspiração, que nos desloca para fora do tempo – uma realidade cheia de novas percepções, a qual é capaz de elevar a nossa consciência com inspirações e provocar mudanças significativas em nossa maneira de ler, interpretar o e nos mover no mundo.

O resultado disso – escolhas mais conscientes. Existe um experimento da física quântica que demonstra o comportamento das partículas diante da presença ou ausência de um observador, revelando que elas se comportam de maneira significativamente distinta na presença dele, sendo determinante na criação de uma realidade. Quando estamos conscientes das escolhas que realizamos, de fato estamos dando substância às coisas. Uma consciência elevada e desperta é um fator imponderável na construção de um novo mundo!

Portanto, inspire-se, capture, realize e mude o seu mundo!

 Karina Almeida (Colunista) Formada em Letras Português/Literatura pela Universidade de Brasília, é professora de Português e revisora de textos pela Editora Chara.






terça-feira, 23 de junho de 2020

Afinal, a água do mundo vai acabar?

Por Karina Almeida
Seria a água um recurso finitoAfinal, a água vai acabar um dia? Sempre que quisermos averiguar a veracidade de uma informação precisamos vasculhar a origem das ideias. Essa pergunta-premissa tem em sua origem uma falsa ideia de que o nosso reservatório de água doce, apesar de conter imensas porções de água, seja limitado. Mas ocorre que, a água que evapora, condensa, precipita, e infiltra na terra, abastecendo nossos reservatórios de águas doces, meus amigos, vem dos oceanos! Isso mesmo. Um ciclo natural que ninguém pode interromper. Logo, não podemos afirmar que a água é um recurso finito, uma vez que os continentes são abastecidos continuamente pelo seu maior reservatório: a água do mar. Porém, não são poucas as vezes que ouvimos a respeito de rumores de possíveis conflitos relacionados a escassez de água.
O geógrafo Luiz Bittar, em sua tese na área de geografia física, O Oriente Médio: o compartilhamento e a tecnologia revertendo a perspectiva de escassez hídrica e conflitos¹, mostra que os avanços relacionados à produção de água doce estão revertendo a ideia de escassez de recursos hídricos. Sabemos que existem diversas regiões com uma escassez hídrica natural, mas isso não deveria implicar necessariamente em uma realidade de escassez hídrica permanente. Ele alerta sobre a importância de rever conceitos repetidos insistentemente pela mídia, por formadores de opinião e acadêmicos – informações que acabam sendo absorvidas como verdades pela população, em virtude de uma reprodução sistemática. O grande problema é que são, em sua grande maioria, paradigmas infundados, ou fundamentados no senso comum. Questões como “a guerra da água” e conflitos relacionados de forma causativa à escassez hídrica são desmitificados a partir de dados que provam uma evolução constante em direção a soluções para o abastecimento hídrico, sobretudo em regiões carentes de um abastecimento natural. Em sua tese, o pesquisador revela que, ao contrário da ideia malthusiana e fatalista que culmina em uma realidade de escassez e falta, a presença de uma boa gestão e da tecnologia poderiam (e podem, atualmente) subverter o gráfico natural. Dessa forma, precisamos considerar a administração humana e a ideia de compartilhamento do recurso mais abundante na terra, uma vez que estes fatores estão em crescente evolução, conforme afirma Bittar: “Os arautos do conflito decorrente da escassez da água não consideram devidamente as possibilidades técnicas e de planejamento para o equacionamento dos problemas de abastecimento para as populações”². Assim, nos parece que as variáveis: compartilhamento das bacias hidrográficas, e crescente inserção tecnológica no processo de produção de água – tornariam a ideia da escassez relacionada ao conflito da água no Oriente Médio, inexistente. Sobre o mito da “guerra da água”, ele conclui: “não existem registros de conflitos por disputa de recursos hídricos, apenas algumas tensões políticas ou diplomáticas em alguns casos específicos. A maior parte das 261 bacias internacionais existentes no mundo é gerida por meio de acordos que asseguram o compartilhamento de suas águas”.

O fato é que, apesar de haver algumas regiões com escassez hídrica natural, a ideia de “crise” também precisa ser reformulada, uma vez que o problema, na realidade, é uma questão de acesso, de gestão e não de disponibilidade. Em um estudo realizado na Universidade de Vitória, no Canadá, é possível constatar um número de tirar o fôlego: uma fonte de pesquisa que identifica um número de cerca de um milhão de bacias hidrográficas, e outros 40.000 modelos de águas subterrâneas. Estes dados resultam em nada menos que 23 milhões de quilômetros cúbicos de água subterrânea no mundo! Em coluna para Carta Educação, Luiz Venturi afirma que a quantidade de água doce existente em nossos aquíferos está acima da capacidade humana de utilizá-la: “apenas a quantidade de água que precipita anualmente só na superfície dos continentes (cerca de 110 km³) já seria capaz, se fosse armazenada, de suprir toda a humanidade”³. E a boa notícia: o maior aquífero do mundo encontra-se sob a Bacia Amazônica – isso mesmo, se tem uma coisa que o Brasil é próspero é em água! O pesquisador afirma que somente este reservatório, Alter do Chão, teria uma capacidade disponível de suprir por três séculos a humanidade! O geógrafo esclarece que tudo isso é possível porque este e muitos aquíferos são carregados continuamente por infiltração de águas que se precipitam da atmosfera e vem dos continentes. O ciclo hidrológico, ou ciclo da água – é um sistema contínuo, ininterrupto e sustentável, ele nunca deixará de funcionar e, portanto, nunca deixará de abastecer nossos reservatórios. Urge a necessidade de repensarmos seriamente a ideia de que a água no mundo pode se esgotar um dia.
Voltemos ao Brasil, fica clara a necessidade de uma substituição da perspectiva de escassez para uma perspectiva de gestão, quando olhamos atentamente para o paradoxo existente na região do Amazonas: a região com um dos maiores potenciais hídricos do Brasil, contudo, o lugar onde menos se tem acesso a água potável em região urbana. Em uma entrevista concedida a rádio da USP, o geógrafo reitera que a mesma realidade pode ser vista na Síria e no Iraque, países providos de um potencial hídrico extremamente abundante (pelo fato de serem banhados pelos rios Eufrates e Tigre), entretanto, estão no ranking de países com o menos acesso à água potável da região. E ainda: existem regiões no mundo que apresentam um nível crítico de aridez e escassez natural de água para consumo, entretanto, por causa da inserção tecnológica, estes países conseguem dispor de um abastecimento de água no nível dos países europeus.
Além da água de reuso e, outros métodos a se considerar, a dessalinização apresenta-se como grande agente de transformação em regiões áridas. Em termos práticos, segundo o professor da Unesp, Jefferson Nascimento de Oliveira: “Dessalinização é o processo de remoção dos sais dissolvidos na água do mar ou nas águas salobras subterrâneas, produzindo água doce” 4. Então, vamos começar falando de Israel, considerado o líder mundial na reutilização de água. Uma região situada em território desértico (60% do território), na qual, atualmente, quase 100% do consumo de água doce vem da dessalinização! Israel recicla e trata 90% de sua água. E também dispara à frente no setor energético, com 93% das residências utilizando energia solar. Um país agrícola, no meio do deserto, e quase metade da irrigação é feita mediante água dessalinizada. Converter a escassez em abastecimento. Cada vez mais as pessoas estão repensando a questão da escassez como uma questão de falta de acesso, e o custo para implementação – em investimento, com retornos incalculáveis. Como em qualquer processo de avanço tecnológico, à medida que o tempo passa, a tecnologia vai se tornando mais acessível e mais barata. A “dessalinização” pode requerer um custo “salgado”, hoje, mas certamente cada vez menor com o tempo. Sobre isso, o pesquisador aponta: “10 anos atrás eram necessários 15KW de energia para cada metro cúbico, hoje conseguimos produzir 1 metro cúbico de água potável com 3.5 KW”. Outra questão que realmente precisamos considerar: as energias inesgotáveis, como a solar e a eólica, estão tornando-se cada vez mais crescentes e acessíveis. E já existem usinas de dessalinização que são movidas totalmente a energias eólicas. Estamos avançando velozmente em direção a um novo mundo.
É importante ressaltar, porém, que o objetivo do esclarecimento nessa coluna é combater o mito da escassez e não incentivar o dito “desperdício” deste recurso natural. Neste aspecto, seria interessante também optarmos pelo conceito de “economia”. Benjamin Radford, em artigo para a revista Science Contributor, com muito bom senso, nos convida a repensarmos a ideia de “desperdício” relacionada ao consumo de água, afirmando que a água, na verdade, nunca “desperdiçada”, tendo em vista o ciclo no qual ela se origina e prossegue em seu curso. O que ocorre é que ela simplesmente se desloca de um local para o outro. O mesmo que sabemos ocorrer com ciclo do carbono e do oxigênio. Lembramos Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O fato é que a água nunca é “perdida”. O que perde é energia, pois é necessária energia para tratar e distribuir a água.
Trata-se apenas de reconstruir a realidade por meio dos fatos, e de não aceitarmos tão passivamente os alarmes que a mídia faz sobre o assunto. Quando ouvimos que existe um conflito em torno da água, e que no futuro a guerra não será pelo petróleo, senão pela água, vemos uma perspectiva claramente fatalista da situação. Para vencer o fatalismo, precisamos ir aos fatos. Indo aos fatos, vencemos o medo – que é disseminado por premissas baseadas em inverdades, pelo desenho de um panorama trágico, ou desconhecido, carente de soluções visíveis.
Por não ser uma perita no assunto, nesta coluna recorri a pesquisadores que refutaram a minha desconfiança a respeito do paradigma da água. Em especial Luiz Antônio Bittar Venturi, que me pareceu tão claro e sóbrio sobre o assunto. E se você deseja ter acessos a suas pesquisas, você pode encontrar algumas referências logo abaixo desta coluna. Quando questionado sobre certa preocupação por parte de educadores de disseminar a ideia de que não há falta, Venturi foi capaz de resumir o meu incômodo diante de publicidades sensacionalistas, atingindo o ponto nevrálgico da coisa: “Não devemos educar pelo medo”. E este é o meu ponto. Realmente acredito que quando educamos pelo medo não geramos conscientização. A conscientização vem pela compreensão da realidade como um todo, e de todas suas variáveis. Por vezes, exige uma investigação mais apurada e inconformismo diante dos paradigmas na forma como são apresentados. O medo prevê no máximo dois caminhos. Ou isso ou aquilo. Numa relação de causa e efeito, e sem abertura para novas possibilidades. Sim, temos que conscientizar sobre a realidade de escassez em muitas regiões – e ensinar sobre economia. Mas também a respeito da boa administração, dizendo a verdade: “Não é que acabou. É que não chegou.” E ensinar por que não chegou. Mostrar os métodos existentes, seus custos e retornos a longo prazo. E quando o custo é investimento. Que afeta futuras gerações.  Estimular a busca por soluções. Assim educamos, instigando a busca por soluções. Validando as existentes. Investindo naquelas que apresentam resultados. Conceitos incutidos pelo medo restringem a visão à apenas uma perspectiva – e se uma das variáveis não funcionar, teremos um problema.
Em suma, moramos no Planta Azul, e se tem uma coisa que não faltará por aqui, é água. Afirmar que a água vai acabar, como vimos, não se assenta em base científica, mas em perspectivas fatalistas que parecem atender a interesses ideológicos e prover um peso maior à indústria da mídia. Segundo a Associação Internacional de Dessalinização (IDA), este método já é utilizado em 150 países. O governo brasileiro já vem projetando a implementação desse tipo de tecnologia no Brasil há um tempo, e agora vem apresentando movimentos mais intencionais em direção a um resultado cada vez mais palpável. Os investimentos precisam continuar. É necessário também considerar o investimento em outros métodos, nas regiões áridas e semiáridas de nosso território – a água de reuso parece mais coerente em muitos casos, sobretudo para irrigação em terras agrícolas, no meio urbano para fins não potáveis e para a recarregar os nossos reservatórios. Este método merece grande atenção em nosso país. O importante é que estamos avançando, e as esperanças parecem culminar cada vez mais em uma realidade representada por soluções lógicas.
“Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, (…) E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes.” (Vidas Secas, Graciliano Ramos)

Karina Almeida

Karina Almeida (Colunista) Formada em Letras Português/Literatura pela Universidade de Brasília, é professora de Português e revisora de textos pela Editora Chara.
Publicado em 8 de maio de 2019 

Páscoa: É domingo, e o terceiro dia sempre chega.

Domingo de Páscoa – para muitos pode representar a celebração de um novo dia que emerge das cinzas. Mas pode ser que, hoje, ao abrir as janelas, o vislumbre do sol pareceu não corresponder com a maneira que você gostaria de vê-lo brilhar, um brilho que entrasse em ressonância com uma realidade interior. Às vezes, precisamos ajustar algumas lentes internas para interpretar a realidade à nossa volta mediante uma nova perspectiva, e por fim descobrir que a vida realmente pode estar disponível a todos que quiserem apalpá-la. Por vezes, a boa notícia já chegou, já está lá fora na caixa de correios, mas optamos por abraçar as velhas, e ficarmos resignados no sofá do lado de dentro, atrás das cortinas, deixando o “ser interior” escorado nas notícias de um velho jornal que parece não ter mais função alguma, senão de nos esconder dentro de nós mesmos. A luz também pode estar lá fora, brilhando, resplandecendo, em seu máximo fulgor, e podemos optar por fechar as janelas e ficarmos com o brilho opaco de uma lâmpada fria que se esforça para iluminar mas parece não cumprir sua função. A verdade: queremos mesmo é sermos aquecidos por dento.
O verdadeiro sentido da páscoa, transcende coelhos e chocolates, a páscoa representa a morte de um Cordeiro. O momento exige uma reflexão. Quantas coisas não parecem desvanecer com tempo em nossas vidas, ou mesmo a própria vida, perder o seu vigor. Esmorecer de verdade. Para alguns, o terceiro dia parece demorado demais, largo e sem fim, a ponto de acreditarmos que já não há mais como reaver o que já foi. Mas e se você tomasse coragem em si mesmo, e resolvesse pisar a grama lá fora, abrir a caixa de correios, e se surpreendesse com a notícia de que o terceiro dia já estava às portas, esperando que você apenas pudesse tomar esse conhecimento? Trata-se de uma simples questão de acesso. Ou, talvez, da pré-disposição para acreditar na possibilidade de que algo novo realmente possa estar disponível. E se mover em direção a isso. Ela pode estar ao alcance de uma mão. E a boa notícia que quero lhe dar neste domingo de páscoa, é: de fato, ela está. Mas como alcançá-la?
Existe um texto conhecido de Fernando Teixeira, que diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. O texto é conhecido, mas pode se tornar velho se não ousarmos colocá-lo em prática. Pode se tornar fresco como uma fruta que acabou de cair no seu pomar, se ousarmos colocá-lo. De fato, há muitas coisas que nós sabemos, mas que não veremos os seus frutos, se não pudermos aplicá-las em nossas vidas. Mas voltemos ao texto, a constatação de algo inerte que parece nos mobilizar não nos ajuda no movimento necessário. Para sermos impulsionados para um novo lugar, precisamos abrir mãos das roupas que não cabem mais, ou, quem sabe, de pensamentos que não cabem mais? Ideias adormecidas com o tempo. Obscuras, e que não produzem efeito de evolução. Precisamos ser mais espertos do que elas, e reconhecermos que não merecem mais um lugar de repouso. É preciso coragem para realizar a travessia. É preciso mais coragem para reconhecer a necessidade de fazê-la.
Você conhece a lei física: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Para o novo entrar, a regra é básica: o velho precisa sair. Para um pensamento novo entrar, precisamos ser intencionais em enxotar com firmeza o velho para fora. Uma ideia que serve para nos deixar à margem de nós mesmos, não merece lugar de repouso. A travessia é necessária. Uma ideia que rouba a nossa esperança nos impedindo de avançar e crescer, não merece lugar de repouso. É preciso coragem. A vida pode ressurgir das cinzas, se acreditarmos nisso. O sepulcro pode se abrir, e os sonhos acordarem de um sono profundo, se acreditarmos nisso. O sentimento de derrota pode sair pela porta dos fundos, para nunca mais voltar, se tão somente acreditarmos nisso, abrirmos a porta da frente, e deixarmos a luz entrar. Tudo aquilo que nos rouba a esperança não merece a nossa atenção. O terceiro dia já chegou e a Esperança já ressurgiu, a Vida já chegou, a morte já foi tragada. Como diz um texto bíblico: “onde está ó morte, o seu aguilhão? ”. É domingo de Páscoa, e a morte foi vencida. É a celebração de um novo dia. Então, vamos lá, abra as janelas, e simplesmente deixe o Sol brilhar e deixe a vida entrar!
Feliz Páscoa!

Publicado em 21 de abril de 2019

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Ensaio-poema sobre a Esperança



A esperança não aprendeu a desesperançar,
Nem tampouco a se resignar,
Pode até cobrir-se de desalentos
E esconder-se em roupas de maus agouros,
Mas sempre estará lá: a sobre-esperar.
A esperança é uma torrente de águas;
Indômitas sobre o irremediável.
Um simples lampejo do esperante
Em compor uma perspectiva luminosa,
Sobrepujará qualquer vestígio de opacidade.
Esperar é o alegrar-se confiante;
É a vida que corre como um rio,
E quer te levar adiante, e adiante
Num fluxo contínuo, numa risonha expectativa
Mesmo não conhecendo donde desaguará;
A esperança não quer saber
Ela quer simplesmente estar
Em gestação daquilo que será
Ela não fica à espreita, resumidamente,
de algo a desabrochar
Mas deleita-se puramente,
em seu estado de esperançar
A esperança é contemplativa,
Ela é uma semente
A desabrochar em broto, caule e flor
Ela é um ventre, um ambiente gerador
Não é apática, passiva ou resignante,
Antes, conhece bem força do avanço silencioso,
E neste lugar subsiste a sua alegria exultante.
Verdade é: que absolvidos da esperança,
seríamos como vaga-lumes no espaço,
Ou estrelas cadentes em noite escura:
Movidos de um ponto a outro, e ponto.
Resumidos num piscar de origem e destino.
Entretanto, a vida se dá, de fato,
Nos interstícios escuros que os olhos não podem ver,
É no silêncio que a vida acontece,
É na espera que ela se desenvolve e cresce.

                               (...)

                     Karina Almeida.

Ora, esperança que se vê não é esperança;
pois o que alguém vê, como o espera?
(Rm 8:24)

Porque deveras haverá bom futuro;
não será frustrada a tua esperança.
(Pv. 23:18)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013




             As produções culturais do nosso tempo parecem permanecer à margem, “à deriva”, pela ausência de arquétipos, de modelos, referências, de uma força motriz que indique o caminho e o sentido do contemporâneo. A grande problemática da contemporaneidade está na dispersão e dissolução dos pontos de vista. O ponto de vista é capaz de responder as principais questões que nos posicionam no mundo e, quando respondidas permitir-nos avançar. “De onde falo? O que eu falo?O que eu construo?” A ausência dessas respostas acabaram gerando tendências rebeldes da negação de todos os pontos de vista e posicionamentos do tipo:“Nenhum desses resolve, então vou ficar com nenhum”. O problema é que a radicalização das formas não contribui para as mudanças, pois não passa da mera replicação das mesmas formas. A negação reproduz o que nega, pois não se posiciona de maneira diferente, afirma e consente com o que se apresenta. A verdadeira revolução não está na negação de tudo que se reprova, mas na afirmação de uma ideia nova, na apresentação de um novo caminho. Por muito tempo, não ter um ponto de vista, não parecia ser tão mal assim. Afinal,certamente alguém em algum momento iria aparecer para resolver o problema vigente. Certamente algum novo movimento surgiria para abrir o caminho. Sempre foi assim, a história é recheada de movimentos que anunciavam a ideia de um mundo novo. Mas dessa vez não aconteceu. O contemporâneo parece se apresentar como aquele tempo que ainda não se revelou,e está a espreita da manifestação de uma identidade. Ele parece aguardar com expectativa a maturação do que virá a ser a ponto de ser visto com clareza e definição. As recorrentes discussões sobre crise de identidade é um sintoma sistêmico da contemporaneidade, são reflexos dessa imagem túrgida, distorcida aos olhos dos espectadores do próprio tempo.

                A primeira atitude crítica que um homem precisa para compreender o tempo que se vive é distanciar-se do próprio tempo. Se nosso objetivo é compreender o contemporâneo,o primeiro passo é nos distanciar de nosso objeto de estudo, portanto, de nosso próprio tempo. Porém, isso não será possível se utilizarmos mecanismos fornecidos pelo próprio tempo. A busca comprometida é uma força combativa que encara a realidade, e mesmo constatando um cenário de ruínas e completo caos, é capaz de transcender. Se vivemos no tempo das respostas rápidas, das coisas prontas e das soluções imediatas, esse primeiro distanciamento pode será assumido quando renunciamos essa urgência, e a pressa de dar respostas prontas,rápidas e superficiais. A simplificação nos impede de apalpar a profundidade das coisas. Chegar às profundezas é chegar à essência das coisas, e conhecê-las como de fato são. Respostas rápidas anestesiam a consciência ao invés de despertá-la, pois representam apenas a sombra das coisas, ao passo que a realidade delas nos impele a avançar, pois é impossível permanecer onde estamos quando a luz aponta com clareza e precisão o próximo passo. Se nosso objetivo é desenhar o contemporâneo, precisamos nos posicionar como um pintor que assiste o cenário, mas não faz parte dele, ainda que esteja bem presente. Ele observa atentamente, registra o que vê, sem pressa e com comprometimento. Ele pode simplesmente rasurar um esboço e representar apenas a sombra do que vê, e não permitir que os espectadores vislumbrem com clareza o cenário da realidade que captou, ou o artista pode se comprometer em empenhar dedicar mais tempo e empenho para apresentar com maior precisão a paisagem que se descortina a sua frente.O primeiro passo, portanto é observar atentamente. Analisar com comprometimento. E o segundo, registrar responsabilidade e com a mesma calma que se contempla. E o terceiro, enxertar uma nova perspectiva. Porém, um novo olhar sobre o tempo só é possível quando não utilizamos os mecanismos oferecidos pelo próprio tempo. E como isso funciona? A exemplo, percebemos que o principal mecanismo de resposta para os problemas de nosso tempo é o anestesiamento. A síndrome da resposta imediata para a solução de um problema latente. Que inclusive, só recebe atenção quando está latente. E que na verdade, não recebe atenção, e sim um gole de invisibilidade que faça calar o qualquer sintoma que anuncie um estado de desordem. Porém, sabemos que os sintomas, a dor, e as latências nada mais são um aviso amigo de que as coisas não vão bem. O problema é quando a tendência de camuflagem incorpora uma ordem sistêmica na sociedade. Hoje,o menino é hiperativo, taca remédio. O menino tem depressão, taca remédio. O menino não sente fome, taca remédio. O menino não está satisfeito, taca presente. Mas por que será que o menino é hiperativo, tem depressão, não sente fome e não está satisfeito? Se deparar com um cenário em ruínas não significa necessariamente que as coisas não vão bem! E sim, que você está diante de uma oportunidade ímpar de se deparar com a realidade assim como ela se apresenta,assumir as rédeas e transformá-la à luz de uma nova perspectiva.  A grande proposta para o nosso tempo não é suplantar, mas resistir. Trazer à tona os problemas e estar pronto para resolvê-los sem auxílio de paliativos. O grande problema dos mecanismos de auto-ajuda, por exemplo, é que eles oferecem respostas prontas para problemas que na maioria das vezes não são seus! Aceitar uma idéia comum é renunciar a batalha pela verdade! As verdadeiras respostas se descortinam por meio da descoberta, fruto de uma busca comprometida e pessoal. E ninguém pode fazer por você! Respostas prontas são como falsos mensageiros à beira do caminho que anunciam em tom festivo: “pronto, você chegou! Está aqui o que você quer, não precisa ir além!”A busca comprometida não acredita em qualquer anúncio até que saboreie o verdadeiro gosto da liberdade. A busca comprometida é uma força combativa que encara a realidade, e mesmo constatando um cenário de ruínas e completo caos é capaz de transcender. Meu professor de literatura disse algo extraordinário esses dias: “Eu pertenço ao tempo porque eu o capto, mas não pertenço porque eu o capto da maneira que o tempo pede”(Alexandre Pilati). Assim, os verdadeiros contemporâneos, serão aqueles resistentes ao contemporâneo, serão resistentes ao próprio tempo. O que sinto a respeito de nosso tempo é que o contemporâneo está à espera de algo que reative as coordenadas da história para reagirmos com ímpeto. Com força de avanço. E dá onde virá essa força motriz? Qual será a perspectiva para o nosso tempo? Está em nossas mãos, captar e reproduzir o que percebemos. Os grandes não assistiram passivamente a história, mas optaram por captar um tempo que ultrapassavam o que vislumbravam na superficialidade, e por isso foram capazes de gerar fundamentos aplicáveis a qualquer tempo. Como mencionei anteriormente, parece que o contemporâneo se apresenta como aquele tempo que ainda não se revelou, e está a espreita da manifestação de uma identidade, isto é, daqueles que irão apontar um novo caminho, firme, sólido, consistente, e revolucionário para o próprio tempo. A grande questão é, onde será que estão os  grandes que resistirão ao próprio tempo, e transformarão os mecanismos de dispersão em ferramentas de despertamento? Será que estou conversando um deles no tempo que se chama "agora mesmo"?

  (...)

Quem desvendará o desenredo e desnudará o desconhecido ?
Quem pleitará pela verdade até que ela insurja
afim de que se abrace o achado com todas as veras do coração?
Não é a verdade a informação que nos torna livres
para alçarmos vôos em nossa essência?
Qual conhecimento nos extraiu a essência
se antes de entranhar-se no ser escondido
não vestiu-se de vida?


Karina Almeida, setembro de 2013.