As produções culturais do nosso tempo parecem permanecer à margem, “à
deriva”, pela ausência de arquétipos, de modelos, referências, de uma
força motriz que indique o caminho e o sentido do contemporâneo. A
grande problemática da contemporaneidade está na dispersão e dissolução
dos pontos de vista. O ponto de vista é capaz de responder as principais
questões que nos posicionam no mundo e, quando respondidas permitir-nos
avançar. “De onde falo? O que eu falo?O que eu construo?” A ausência
dessas respostas acabaram gerando tendências rebeldes da negação de
todos os pontos de vista e posicionamentos do tipo:“Nenhum desses
resolve, então vou ficar com nenhum”. O problema é que a radicalização
das formas não contribui para as mudanças, pois não passa da mera
replicação das mesmas formas. A negação reproduz o que nega, pois não se
posiciona de maneira diferente, afirma e consente com o que se
apresenta. A verdadeira revolução não está na negação de tudo que se
reprova, mas na afirmação de uma ideia nova, na apresentação de um novo
caminho. Por muito tempo, não ter um ponto de vista, não parecia ser tão
mal assim. Afinal,certamente alguém em algum momento iria aparecer para
resolver o problema vigente. Certamente algum novo movimento surgiria
para abrir o caminho. Sempre foi assim, a história é recheada de
movimentos que anunciavam a ideia de um mundo novo. Mas dessa vez não
aconteceu. O contemporâneo parece se apresentar como aquele tempo que
ainda não se revelou,e está a espreita da manifestação de uma
identidade. Ele parece aguardar com expectativa a maturação do que virá a
ser a ponto de ser visto com clareza e definição. As recorrentes
discussões sobre crise de identidade é um sintoma sistêmico da
contemporaneidade, são reflexos dessa imagem túrgida, distorcida aos
olhos dos espectadores do próprio tempo.
A
primeira atitude crítica que um homem precisa para compreender o tempo
que se vive é distanciar-se do próprio tempo. Se nosso objetivo é
compreender o contemporâneo,o primeiro passo é nos distanciar de nosso
objeto de estudo, portanto, de nosso próprio tempo. Porém, isso não será
possível se utilizarmos mecanismos fornecidos pelo próprio tempo. A
busca comprometida é uma força combativa que encara a realidade, e mesmo
constatando um cenário de ruínas e completo caos, é capaz de
transcender. Se vivemos no tempo das respostas rápidas, das coisas
prontas e das soluções imediatas, esse primeiro distanciamento pode será
assumido quando renunciamos essa urgência, e a pressa de dar respostas
prontas,rápidas e superficiais. A simplificação nos impede de apalpar a
profundidade das coisas. Chegar às profundezas é chegar à essência das
coisas, e conhecê-las como de fato são. Respostas rápidas anestesiam a
consciência ao invés de despertá-la, pois representam apenas a sombra
das coisas, ao passo que a realidade delas nos impele a avançar, pois é
impossível permanecer onde estamos quando a luz aponta com clareza e
precisão o próximo passo. Se nosso objetivo é desenhar o contemporâneo,
precisamos nos posicionar como um pintor que assiste o cenário, mas não
faz parte dele, ainda que esteja bem presente. Ele observa atentamente,
registra o que vê, sem pressa e com comprometimento. Ele pode
simplesmente rasurar um esboço e representar apenas a sombra do que vê, e
não permitir que os espectadores vislumbrem com clareza o cenário da
realidade que captou, ou o artista pode se comprometer em empenhar
dedicar mais tempo e empenho para apresentar com maior precisão a
paisagem que se descortina a sua frente.O primeiro passo, portanto é
observar atentamente. Analisar com comprometimento. E o segundo,
registrar responsabilidade e com a mesma calma que se contempla. E o
terceiro, enxertar uma nova perspectiva. Porém, um novo olhar sobre o
tempo só é possível quando não utilizamos os mecanismos oferecidos pelo
próprio tempo. E como isso funciona? A exemplo, percebemos que o
principal mecanismo de resposta para os problemas de nosso tempo é o
anestesiamento. A síndrome da resposta imediata para a solução de um
problema latente. Que inclusive, só recebe atenção quando está latente. E
que na verdade, não recebe atenção, e sim um gole de invisibilidade que
faça calar o qualquer sintoma que anuncie um estado de desordem. Porém,
sabemos que os sintomas, a dor, e as latências nada mais são um aviso
amigo de que as coisas não vão bem. O problema é quando a tendência de
camuflagem incorpora uma ordem sistêmica na sociedade. Hoje,o menino é
hiperativo, taca remédio. O menino tem depressão, taca remédio. O menino
não sente fome, taca remédio. O menino não está satisfeito, taca
presente. Mas por que será que o menino é hiperativo, tem depressão, não
sente fome e não está satisfeito? Se deparar com um cenário em ruínas
não significa necessariamente que as coisas não vão bem! E sim, que você
está diante de uma oportunidade ímpar de se deparar com a realidade
assim como ela se apresenta,assumir as rédeas e transformá-la à luz de
uma nova perspectiva. A grande proposta para o nosso tempo não é
suplantar, mas resistir. Trazer à tona os problemas e estar pronto para
resolvê-los sem auxílio de paliativos. O grande problema dos mecanismos
de auto-ajuda, por exemplo, é que eles oferecem respostas prontas para
problemas que na maioria das vezes não são seus! Aceitar uma idéia comum
é renunciar a batalha pela verdade! As verdadeiras respostas se
descortinam por meio da descoberta, fruto de uma busca comprometida e
pessoal. E ninguém pode fazer por você! Respostas prontas são como
falsos mensageiros à beira do caminho que anunciam em tom festivo:
“pronto, você chegou! Está aqui o que você quer, não precisa ir além!”A
busca comprometida não acredita em qualquer anúncio até que saboreie o
verdadeiro gosto da liberdade. A busca comprometida é uma força
combativa que encara a realidade, e mesmo constatando um cenário de
ruínas e completo caos é capaz de transcender. Meu professor de
literatura disse algo extraordinário esses dias: “Eu pertenço ao tempo
porque eu o capto, mas não pertenço porque eu o capto da maneira que o
tempo pede”(Alexandre Pilati). Assim, os verdadeiros contemporâneos,
serão aqueles resistentes ao contemporâneo, serão resistentes ao próprio
tempo. O que sinto a respeito de nosso tempo é que o contemporâneo está
à espera de algo que reative as coordenadas da história para reagirmos
com ímpeto. Com força de avanço. E dá onde virá essa força motriz? Qual
será a perspectiva para o nosso tempo? Está em nossas mãos, captar e
reproduzir o que percebemos. Os grandes não assistiram passivamente a
história, mas optaram por captar um tempo que ultrapassavam o que
vislumbravam na superficialidade, e por isso foram capazes de gerar
fundamentos aplicáveis a qualquer tempo. Como mencionei anteriormente, parece que o contemporâneo se apresenta como aquele tempo que
ainda não se revelou, e está a espreita da manifestação de uma identidade, isto é, daqueles que irão apontar um novo caminho, firme, sólido, consistente, e revolucionário para o próprio tempo. A grande questão é, onde será que estão os grandes que
resistirão ao próprio tempo, e transformarão os mecanismos de dispersão
em ferramentas de despertamento? Será que estou conversando um deles no tempo que se chama "agora mesmo"?
(...)
Quem desvendará o desenredo e desnudará o desconhecido ?
Quem pleitará pela verdade até que ela insurja
afim de que se abrace o achado com todas as veras do coração?
Não é a verdade a informação que nos torna livres
para alçarmos vôos em nossa essência?
Qual conhecimento nos extraiu a essência
se antes de entranhar-se no ser escondido
não vestiu-se de vida?
Karina Almeida, setembro de 2013.
