segunda-feira, 23 de setembro de 2013




             As produções culturais do nosso tempo parecem permanecer à margem, “à deriva”, pela ausência de arquétipos, de modelos, referências, de uma força motriz que indique o caminho e o sentido do contemporâneo. A grande problemática da contemporaneidade está na dispersão e dissolução dos pontos de vista. O ponto de vista é capaz de responder as principais questões que nos posicionam no mundo e, quando respondidas permitir-nos avançar. “De onde falo? O que eu falo?O que eu construo?” A ausência dessas respostas acabaram gerando tendências rebeldes da negação de todos os pontos de vista e posicionamentos do tipo:“Nenhum desses resolve, então vou ficar com nenhum”. O problema é que a radicalização das formas não contribui para as mudanças, pois não passa da mera replicação das mesmas formas. A negação reproduz o que nega, pois não se posiciona de maneira diferente, afirma e consente com o que se apresenta. A verdadeira revolução não está na negação de tudo que se reprova, mas na afirmação de uma ideia nova, na apresentação de um novo caminho. Por muito tempo, não ter um ponto de vista, não parecia ser tão mal assim. Afinal,certamente alguém em algum momento iria aparecer para resolver o problema vigente. Certamente algum novo movimento surgiria para abrir o caminho. Sempre foi assim, a história é recheada de movimentos que anunciavam a ideia de um mundo novo. Mas dessa vez não aconteceu. O contemporâneo parece se apresentar como aquele tempo que ainda não se revelou,e está a espreita da manifestação de uma identidade. Ele parece aguardar com expectativa a maturação do que virá a ser a ponto de ser visto com clareza e definição. As recorrentes discussões sobre crise de identidade é um sintoma sistêmico da contemporaneidade, são reflexos dessa imagem túrgida, distorcida aos olhos dos espectadores do próprio tempo.

                A primeira atitude crítica que um homem precisa para compreender o tempo que se vive é distanciar-se do próprio tempo. Se nosso objetivo é compreender o contemporâneo,o primeiro passo é nos distanciar de nosso objeto de estudo, portanto, de nosso próprio tempo. Porém, isso não será possível se utilizarmos mecanismos fornecidos pelo próprio tempo. A busca comprometida é uma força combativa que encara a realidade, e mesmo constatando um cenário de ruínas e completo caos, é capaz de transcender. Se vivemos no tempo das respostas rápidas, das coisas prontas e das soluções imediatas, esse primeiro distanciamento pode será assumido quando renunciamos essa urgência, e a pressa de dar respostas prontas,rápidas e superficiais. A simplificação nos impede de apalpar a profundidade das coisas. Chegar às profundezas é chegar à essência das coisas, e conhecê-las como de fato são. Respostas rápidas anestesiam a consciência ao invés de despertá-la, pois representam apenas a sombra das coisas, ao passo que a realidade delas nos impele a avançar, pois é impossível permanecer onde estamos quando a luz aponta com clareza e precisão o próximo passo. Se nosso objetivo é desenhar o contemporâneo, precisamos nos posicionar como um pintor que assiste o cenário, mas não faz parte dele, ainda que esteja bem presente. Ele observa atentamente, registra o que vê, sem pressa e com comprometimento. Ele pode simplesmente rasurar um esboço e representar apenas a sombra do que vê, e não permitir que os espectadores vislumbrem com clareza o cenário da realidade que captou, ou o artista pode se comprometer em empenhar dedicar mais tempo e empenho para apresentar com maior precisão a paisagem que se descortina a sua frente.O primeiro passo, portanto é observar atentamente. Analisar com comprometimento. E o segundo, registrar responsabilidade e com a mesma calma que se contempla. E o terceiro, enxertar uma nova perspectiva. Porém, um novo olhar sobre o tempo só é possível quando não utilizamos os mecanismos oferecidos pelo próprio tempo. E como isso funciona? A exemplo, percebemos que o principal mecanismo de resposta para os problemas de nosso tempo é o anestesiamento. A síndrome da resposta imediata para a solução de um problema latente. Que inclusive, só recebe atenção quando está latente. E que na verdade, não recebe atenção, e sim um gole de invisibilidade que faça calar o qualquer sintoma que anuncie um estado de desordem. Porém, sabemos que os sintomas, a dor, e as latências nada mais são um aviso amigo de que as coisas não vão bem. O problema é quando a tendência de camuflagem incorpora uma ordem sistêmica na sociedade. Hoje,o menino é hiperativo, taca remédio. O menino tem depressão, taca remédio. O menino não sente fome, taca remédio. O menino não está satisfeito, taca presente. Mas por que será que o menino é hiperativo, tem depressão, não sente fome e não está satisfeito? Se deparar com um cenário em ruínas não significa necessariamente que as coisas não vão bem! E sim, que você está diante de uma oportunidade ímpar de se deparar com a realidade assim como ela se apresenta,assumir as rédeas e transformá-la à luz de uma nova perspectiva.  A grande proposta para o nosso tempo não é suplantar, mas resistir. Trazer à tona os problemas e estar pronto para resolvê-los sem auxílio de paliativos. O grande problema dos mecanismos de auto-ajuda, por exemplo, é que eles oferecem respostas prontas para problemas que na maioria das vezes não são seus! Aceitar uma idéia comum é renunciar a batalha pela verdade! As verdadeiras respostas se descortinam por meio da descoberta, fruto de uma busca comprometida e pessoal. E ninguém pode fazer por você! Respostas prontas são como falsos mensageiros à beira do caminho que anunciam em tom festivo: “pronto, você chegou! Está aqui o que você quer, não precisa ir além!”A busca comprometida não acredita em qualquer anúncio até que saboreie o verdadeiro gosto da liberdade. A busca comprometida é uma força combativa que encara a realidade, e mesmo constatando um cenário de ruínas e completo caos é capaz de transcender. Meu professor de literatura disse algo extraordinário esses dias: “Eu pertenço ao tempo porque eu o capto, mas não pertenço porque eu o capto da maneira que o tempo pede”(Alexandre Pilati). Assim, os verdadeiros contemporâneos, serão aqueles resistentes ao contemporâneo, serão resistentes ao próprio tempo. O que sinto a respeito de nosso tempo é que o contemporâneo está à espera de algo que reative as coordenadas da história para reagirmos com ímpeto. Com força de avanço. E dá onde virá essa força motriz? Qual será a perspectiva para o nosso tempo? Está em nossas mãos, captar e reproduzir o que percebemos. Os grandes não assistiram passivamente a história, mas optaram por captar um tempo que ultrapassavam o que vislumbravam na superficialidade, e por isso foram capazes de gerar fundamentos aplicáveis a qualquer tempo. Como mencionei anteriormente, parece que o contemporâneo se apresenta como aquele tempo que ainda não se revelou, e está a espreita da manifestação de uma identidade, isto é, daqueles que irão apontar um novo caminho, firme, sólido, consistente, e revolucionário para o próprio tempo. A grande questão é, onde será que estão os  grandes que resistirão ao próprio tempo, e transformarão os mecanismos de dispersão em ferramentas de despertamento? Será que estou conversando um deles no tempo que se chama "agora mesmo"?

  (...)

Quem desvendará o desenredo e desnudará o desconhecido ?
Quem pleitará pela verdade até que ela insurja
afim de que se abrace o achado com todas as veras do coração?
Não é a verdade a informação que nos torna livres
para alçarmos vôos em nossa essência?
Qual conhecimento nos extraiu a essência
se antes de entranhar-se no ser escondido
não vestiu-se de vida?


Karina Almeida, setembro de 2013.