sábado, 22 de maio de 2021

Uma Reflexão sobre o Tempo e o nosso Posicionamento do Mundo

 

Você já pegou uma carona na leitura de um livro ou na narrativa de filme, e teve a experiência de ser atingido por uma fala, frase ou percepção que despertou você para algo novo? Por vezes, o contato com uma narrativa cheia de significados é uma poderosa ferramenta para nos auxiliar na ressignificação de nossas próprias narrativas.

É incrível o poder que elas possuem de provocar em nós coisas que demorariam anos, ou mesmo exigiriam a combinação muitas variáveis para produzir o mesmo resultado.

É o poder do acesso. Uma narrativa que coincide em algum aspecto com as nossas próprias histórias pode contribuir para verdadeiras epifanias, as quais são capazes de despertar a nossa consciência para coisas que são verdadeiramente importantes.

Considero essa abertura para uma nova perspectiva uma espécie de rasgo no tempo, um encontro com uma realidade atemporal, uma vez que emerge subitamente como uma inspiração e provoca o descortinar numa fração de segundo. Por isso, é interessante notar que esse tipo de experiência também se relaciona de alguma forma com uma reflexão sobre o tempo e o nosso posicionamento no mundo.


No filme O Preço do Amanhã, de Andrew Niccol, o tempo é representado como moeda e, no momento em que ele “zera” no cronômetro implantado no braço de cada indivíduo, o coração para de pulsar. A consciência de que o tempo finda é um exercício reflexivo extremamente saudável, na medida em que produz em nós certo senso de urgência – essa que nos concede um impulso, uma força motriz necessária ao movimento contínuo de transformação e revolução. Quanto maior significado atribuímos às coisas, tendemos a tratá-las à altura que elas exigem, ou mesmo merecem.


Há um texto bíblico que diz: “Não sabeis que entre todos os que correm no estádio, na verdade, somente um recebe o grande prêmio? Correi de tal maneira que alcanceis” (1Coríntios 9.24). Refletir sobre o tempo nos leva a lutarmos com um alvo certo, investir em um sonho legítimo – e pode ser considerado como tal, quando os sonhos reverberam a partir certa “percepção de eternidade” produzindo um senso de convicção e propósito. É preciso segurar essa percepção (e é essencialmente sobre ela que discorro por todo texto), lutarmos com toda a força da nossa existência para conceber dentro do tempo o que fora capturado fora dele. Os nossos corações são uma espécie de antena parabólica, capazes de operar dentro e fora do tempo. Portanto, dê ouvidos às suas intuições, elas merecem profundo respeito.

A vida é feita de pausas e impulsos. Um corredor que gasta toda a sua energia na largada, terá problemas no percurso. Precisamos encontrar o nosso ritmo na corrida.

As pausas, que proporcionam momentos de inspiração e descanso e a consciência da finitude do tempo, a qual nos desperta para aquele senso de urgência, corresponde a estes movimentos intercalados de inspiração e expiração. Reflexão e ação. Abastecimento e impulso. Se visualizarmos estes movimentos como pontos de uma tapeçaria, e nos distanciarmos um pouco, nos lembraremos que o tempo discorre mediante uma narrativa. E é muito importante considerá-lo dessa forma. A perspectiva final nos dará a visão de um quadro completo. Cheio de significado. Mas foi ponto a ponto, pincelada a pincelada, daí a importância de concebermos o tempo como jornada, como um percurso.

O tempo se revela no desabrochar da semente. O valorizamos quando temos essa perspectiva de processo: quando temos paciência de esperar germinar, e ficamos na expectativa de ver crescer, pouco a pouco, e colher de seus frutos, no devido tempo. Por vezes, com avanços imperceptíveis enquanto aguardamos os primeiros frutos. Mas o verdadeiro sabor dos frutos está todo aí. Na história que ele carrega dentro.


O tempo também pode ser feito de uma sucessão de “agoras”. Quando optamos por apreciar a viagem O resultado é uma presentificação de um “agora” mais largo e cheio de valor. Quando apreciamos a vida em seus mínimos aspectos, também concedemos grande valor ao tempo, dado a nós como dádiva. Percebemos, dessa forma, que a eternidade também pode se expressar em eternos momentos presentes, e que mínimos aspectos podem ser os mais primordiais! Há um texto no livro de Eclesiastes que gosto muito, e diz: “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras”. Há coisas que possuem valor de eternidade quando apreciadas dignamente. Portanto, a valorização do tempo também está relacionada à apreciação, reconhecimento e contemplação das coisas.

Existe uma amplificação desse estado, representado por um tipo de tempo, nomeado no grego de ‘Cairos’ – é o tempo que designa um momento oportuno, que parece ser um instante presentificado do “agora”- sim quero ser intencionalmente redundante, pois é uma espécie de “agora” sobre “agora”, culminando em um único instante cheio de fulgor. Um momento onde todas as variáveis parecem convergir para um instante único, decisivo e oportuno. Santo Agostinho, no livro XI de suas Confissões, discorreu acerca da relação do homem com o tempo, definindo a eternidade como um eterno presente: “Na eternidade, ao contrário, nada passa, tudo é presente”.

Seria um eterno agora, um lapso da eternidade invadindo o espaço-tempo e modificando significativamente a nossa relação com o mundo que nos cerca.


No filme, Tomorrowland: um Lugar onde nada é Impossível, uma garota encontra um “pin” que, ao ser tocado, a transportava instantaneamente para uma outra dimensão no futuro. Não um futuro comum, mas um lugar onde “todos os gênios, artistas e cientistas”, decididos mudar o mundo, “pudessem construir tudo que imaginassem”. A garota é escolhida para mudar o mundo por ser uma sonhadora, alguém que nunca desiste, na missão de desativar uma espécie de “pin” gigante que estava emitindo uma frequência a qual estaria induzindo a humanidade sobre a ideia de que o mundo iria acabar mal. O fato é que podemos escolher as frequências das quais nos alimentamos, elas serão determinantes na criação do nosso ecossistema interior. Frequências são modelos de percepções que determinarão a forma como interpretamos e nos posicionamos no mundo. Este filme merecia um texto somente para ele. Mas o ponto que queria está aqui: um toque, um instante, e ela era capaz de vislumbrar uma realidade futura. Neste momentum de insight ou inspiração, que nos desloca para fora do tempo – uma realidade cheia de novas percepções, a qual é capaz de elevar a nossa consciência com inspirações e provocar mudanças significativas em nossa maneira de ler, interpretar o e nos mover no mundo.

O resultado disso – escolhas mais conscientes. Existe um experimento da física quântica que demonstra o comportamento das partículas diante da presença ou ausência de um observador, revelando que elas se comportam de maneira significativamente distinta na presença dele, sendo determinante na criação de uma realidade. Quando estamos conscientes das escolhas que realizamos, de fato estamos dando substância às coisas. Uma consciência elevada e desperta é um fator imponderável na construção de um novo mundo!

Portanto, inspire-se, capture, realize e mude o seu mundo!

 Karina Almeida (Colunista) Formada em Letras Português/Literatura pela Universidade de Brasília, é professora de Português e revisora de textos pela Editora Chara.